sábado, 28 de junho de 2014
O que é bom reverbera
Cheguei na metade. As pessoas já pareciam estar num ritmo próprio, ou melhor, próprio do lugar porque eu, chegando atrasada, ainda me sentia fora - era eu, e eles.
Sentei num lugar qualquer longe do olhar de todos, não queria atrapalhar, chamar atenção, ser vista. Mas, como quase que um convite sem a oportunidade de negar, entrei na roda. Fechei meus olhos e não tive vergonha - as vezes deixo de fazer o que eu quero por vergonha. Senti seu ritmo. Todos batiam de formas diferentes mas eu conseguia perceber, era o coração. Cada um com seu coração, cada coração batendo com substâncias diferentes. O que estava na minha direita começou com as mãos e o chão de madeira. Outro lá no canto também usava as mãos e madeira, mas o ritmo era diferente. Eu, ainda com meus olhos fechados, batia palmas. Eu, ainda com meu olhos fechados. Eu, ainda com meus olhos fechados me lembrei de tanta coisa. Lembrei tanto que por um milésimo de segundo senti a presença do Michel ao meu redor. Era o seu cheiro e o cheiro do Rio de Janeiro, aquele cheiro bom de "pode fazer tudo". O som do metrô, o vento frio que passava pela gente naqueles dias de chuva de dezembro, o quatro só nosso, os cafés da manhã que viravam almoço por acordar perto do meio dia. Aquele cheiro de tudo entrou rasgando minhas narinas. Doeu. Chorei. E quis mais. Tudo que é bom, um dia, reverbera.
quinta-feira, 26 de junho de 2014
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Ainda sobre a poética
Ainda sobre a poética, percebi agora, nesse momento entre a consciência e o sono - nesse momento em que as idéias fugitivas da realidade tomam liberdade - percebi que minha vontade de fotografar não pode ser dada a qualquer corpo. Ela, a fotografia, tem sua poética, e a poética tem seu personagem. Meu nú e cigarro.
Queria me debruçar sobre a página e conseguir deixar a narrativa fluir como a de Clarice, mas vez ou outra esbarro na finitude da coisa dita. Passando e repassando as frases na minha cabeça, soam-me como ecos, tudo faz sentido e tem forma. Mas tentando transformar o nó na garganta em poética, porque ainda preciso ter uma poética, esbarro.
Ontem falávamos sobre a poética de um exercício de Tarcísio. Ele próprio já é uma poética, mas vou tentar exemplificar em palavras. Falávamos sobre a poética e fiquei pensando sobre o que ela significa. Acho que seria como o significado da coisa, aquele que a traduz através da sua beleza mais própria. Pra mim há poética na chuva, não pela sua constituição física de água, nem a forma como o processo do clima transforma vapor em chuva, mas...aquelas gotas caindo...o cheiro da terra ficando molhada...é...tá vendo? esbarro. Não consigo definir a poética da chuva, mas pra mim ela tem sua poética, e é linda, tão própria, e tão minha, que não consigo transformá-la em outra coisa.
sexta-feira, 20 de junho de 2014
Pelo contrário
Não é pelo medo de me mostrar, já estou o fazendo. Também não é uma forma de dizer que gosto, porque também não é isso. Mas no ato simples de se dirigir pra explicar, fica implícito o querer. Eu quero, claro que quero, mas é um querer quase não querendo. Não que seja descompromissado, mas, quase que, livre.
Eu juro, é tão verdade! Mas parece que no impulso de desdizer, vou acabar dizendo. Mas não é isso, pelo contrário.
quarta-feira, 11 de junho de 2014
Tramando
Era um cigarro. Tinha o corpo fino, longo, mas não cabia entre os dedos, escapava-lhe. Na ponta, a cabeça queimava em cinza de pensamentos, não, ideias, não, acordes. A boca larga, os lábios acompanhando a proporção, tinha gosto de nicotina.
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